A Identidade da "Mulher" de Apocalipse 12
Apocalipse 12 concentra-se em três personagens. Isso nos ajudará a identificar a mulher, o que é facilitado pelo próprio contexto.
A. Um grande dragão vermelho. O versículo 9 identifica com clareza essa personagem. Ela é ninguém menos que Satanás. O capítulo 20, versículo 2, confirma a identificação. Satanás é revelado claramente como autor e instigador dos ataques contra o povo de Deus aqui descrito no livro. Scott observa bem:
Por que o dragão é usado como símbolo de Satanás? Faraó, rei do Egito, na sua crueldade contra o povo de Deus e na sua independência orgulhosa e arrogante de Deus, é denominado "o grande dragão" (Ez 29.3,4). Nabucodonosor é mencionado da mesma forma em relação à sua violência e crueldade (Jr 51.34). Juntando as várias referências bíblicas no Livro de Salmos e nos três primeiros grandes profetas ao crocodilo, o soberano dos mares, identificado com o dragão, a característica principal parece ser crueldade insaciável.
Os egípcios consideravam o crocodilo ou o dragão, de acordo com seus hieróglifos, a fonte e o autor de todo mal, adorado pelo nome de Typho. A cor do dragão, vermelho, indica seu caráter sanguinário e assassino. Essa é a primeira vez nas Escrituras que Satanás é mencionado diretamente como um dragão. Os monarcas pagãos, Faraó e Nabucodonosor, escravizaram e oprimiram o povo de Deus e, agindo pelo poder satânico, mereceram a denominação de dragão. Mas, no período tratado no nosso capítulo, Satanás é o príncipe do mundo — seu governador. O poder romano é o instrumento por meio do qual ele age. Logo, o título "grande dragão vermelho" pode agora pela primeira vez ser usado por ele. (Walter Scott, Exposition of the revelation of Jesus Christ, p. 249-50)
O dragão aparece com sete cabeças, dez chifres e sete coroas nas cabeças (Ap 12.3), que são as mesmas que a besta possui nos capítulos 13 e 17. Afirma-se claramente em 13.2 que esse indivíduo recebe sua autoridade de Satanás. Isso nos mostra que Satanás está buscando uma autoridade governamental sobre o "remanescente" da mulher (12.7), cuja autoridade pertence, por direito, ao próprio Cristo.
B. Um filho varão. A citação do salmo 2, que todos concordam ser um salmo messiânico, identifica o filho aqui com ninguém menos que Jesus Cristo. O fato do nascimento, o fato do destino desse filho, pois Ele "há de reger todas as nações com cetro de ferro", e o fato da ascensão, já que ele é "arrebatado para Deus até ao seu trono", todos levam à identificação de uma pessoa, o Senhor Jesus Cristo, pois todas as três afirmações não poderiam ser feitas a respeito de ninguém mais.
C Uma mulher vestida do sol. Embora haja um acordo geral entre comentaristas de todas as tendências com relação à identidade dos dois indivíduos mencionados anteriormente, há grande diversidade de interpretações com relação à personagem principal dessa passagem.
1. Existiram muitas falsas interpretações da identidade dessa mulher. Alguns crêem que ela era Maria. No entanto, a única característica que tornaria isso possível seria a maternidade, pois Maria jamais foi perseguida, jamais fugiu para o deserto, jamais foi cuidada por 1260 dias. (Cf. F. C. Jennings, Studies in Revelation, p. 310-1) Outros acreditavam que essa mulher fosse a igreja que está trabalhando para trazer Cristo às nações.(Cf. Ford C. Ottman, The unfolding of the ages, p. 280) Isso, no entanto, baseia-se no princípio alegorizador de interpretação e deve ser rejeitado. A igreja não produziu Cristo, mas Cristo produziu a igreja. Já que a igreja não é vista na terra nos capítulos de 4 a 19 de Apocalipse, ela não pode ser representada por essa mulher. Outros identificaram a mulher como o líder de alguma denominação específica. Mas somente pelos devaneios mais loucos da imaginação é que algum indivíduo seria levado a fazer essa interpretação hoje.
a. O contexto inteiro da passagem revela que João está lidando com a nação de Israel. Gaebelein escreve:
Apocalipse, capítulos de 11 a 14, leva-nos profeticamente a Israel, à terra de Israel e à tribulação final de Israel, ao tempo da angústia de Jacó e à salvação do remanescente fiel. O cenário do capítulo 11 é "a grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado". Aquela cidade não é Roma, mas Jerusalém. O capítulo 12 começa uma profecia conectada, terminando com o capítulo 14. (Gaebelein, loc. cit)
Grant comenta sobre Apocalipse 11.19: "A arca, então, vista no templo no céu, é o sinal da graça não esquecida de Deus para com Israel [...] ". (F. W. Grant, The revelation of Christ, p. 126) Logo, o contexto dessa passagem mostra que Deus está lidando com Israel novamente. (Cf. Ottman, op. cit., p. 278-9.)
b. Muitas vezes no Antigo Testamento, o sol, a lua e as estrelas são usados com referência a Israel. (Cf. Ibid., p. 282) São empregados dessa maneira em Gênesis 37.9, em que os filhos de Jacó são claramente entendidos. Compare Jeremias 31.35,36, Josué 10.12-14, Juizes 5.20 e Salmos 89.35-37, em que corpos celestiais são associados à história de Israel.
c. O significado do número doze. O número doze não só representa as doze tribos de Israel, mas é usado nas Escrituras como número governamental.(Cf. Jennings, op. cit., p. 312) Darby diz:
... após a questão da salvação pessoal ou do relacionamento com Deus, dois grandes temas se apresentam nas Escrituras: a igreja, aquela graça soberana que nos dá um lugar junto ao próprio Cristo na glória e na bênção; e o governo de Deus do mundo, do qual Israel forma o centro e a esfera imediata. (Willíam Kelly, org. The collected writings of J. N. Darby, Prophetical, Xi, p. 190)
Visto então que a mulher representa aquilo que deverá demonstrar o governo divino na terra, e Israel é o instrumento escolhido por Deus para esse fim, essa mulher deve ser identificada como Israel.
d. O uso do termo mulher. O termo mulher é usado oito vezes nesse capítulo, e mais oito vezes o pronome ela é empregado em referência à mulher. Vemos esse termo usado muitas vezes no Antigo Testamento, em referência à nação de Israel. É usado dessa maneira em Isaías 47.7-9; 54.5,6; Jeremias 4.31; Miquéias 4.9, 10; 5.3 e Isaías 66.7,8. Enquanto a igreja é chamada noiva, ou virgem casta, jamais a encontramos aludida como mulher.
e. O nome do adversário. O nome dragão é usado em todo o Antigo Testamento em referência a algum adversário específico da nação de Israel. O nome deve ser aplicado a Satanás nesse capítulo porque todos os outros perseguidores que levaram o nome de dragão eram apenas prenúncios da grande perseguição que está por vir por meio de Satanás. O uso do nome dragão em referência ao perseguidor identificaria o perseguido como Israel, com base nos empregos anteriores na Palavra de Deus.
f. O uso do termo deserto. O deserto é aludido como lugar de refúgio dado à mulher na sua fuga (Ap 12.14). Não podemos negar que o deserto tem referência singular a Israel na história nacional. Israel foi levado ao "deserto da terra do Egito" (Ez 20.36). Israel, recusando-se a seguir o Senhor na terra prometida, retornou ao deserto por quarenta anos. A descrença de Israel levou Ezequiel a declarar o propósito de Deus: "Levar-vos-ei ao deserto dos povos e ali entrarei em juízo convosco, face a face" (Ez 20.35). Oséias revela que, no longo período em que Israel passaria "no deserto", Deus seria misericordioso com eles (Os 2.14-23). (Cf. W. C. Stevens, Revelation, crown-jewel of prophecy, n, p. 212-3)
g. O filho varão. O paralelismo entre Apocalipse 12 e Miquéias 5 ajuda a identificar a mulher como Israel. Miquéias 5.2 registra o nascimento do rei. Por causa da rejeição desse rei, a nação será deixada de lado ("Portanto, o Senhor os entregará", Mq 5.3). A nação estará em dores de parto "até ao tempo em que a que está em dores tiver dado à luz" (Mq 5.3), isto é, até o cumprimento do propósito de Deus. O mesmo plano é apresentado em Apocalipse 12. Kelly escreve que essa profecia deve ser entendida
... junto com o cumprimento do propósito de Deus em relação a Israel [...] Cristo nasceu (Mq 5.2): daí vem a Sua rejeição [...] a profecia deixa de lado tudo o que se relaciona à igreja e retoma o nascimento de Cristo figuradamente, ligando-o ao desenrolar do propósito divino, simbolizado por um nascimento [...] Aqui ele é colocado figuradamente, como Sião em trabalho de parto até o nascimento desse grande propósito de Deus relativo a Israel [...] quando o propósito terreno de Deus começa a entrar em ação nos últimos dias, o remanescente daquele período fará parte de Israel e tomará seu antigo lugar judeu. Os ramos naturais serão enxertados em sua própria oliveira. (William Kelly, Lectures on the revelation, p. 254-7)
h. A afirmação específica das Escrituras. Em Romanos 9.4,5 Paulo escreve com relação aos israelitas: "deles descende o Cristo, segundo a carne" (Rm 9.5). Já que "o filho varão" pode ser identificado com certeza, e já que aquela que dá a luz o filho varão é denominada Israel, a mulher deve ser identificada como Israel. (Cf. Otiman, loc. cit)
i. Os 1 260 dias. Duas vezes nessa passagem há menção ao período de três anos e meio (Ap 12.6,14). Isso se refere à última metade da semana das profecias da septuagésima semana de Daniel (Dn 9.24-27). Essa profecia é declarada especificamente "sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade" (Dn 9.24). Visto que ela é declarada a Daniel, só poderia referir-se a Israel e a Jerusalém. Cada vez que esse período é mencionado nas Escrituras, ou como 1 260 dias, ou 42 meses, ou três anos e meio, ou um tempo, dois tempos e metade dum tempo, sempre se refere a Israel e a um período em que Deus está lidando com aquela nação.
j. A referência a Miguel. Em Daniel 12.1 o anjo Miguel é chamado "o grande príncipe, o defensor dos filhos do teu povo". Miguel está unido com o destino da nação de Israel por essa palavra do Senhor a Daniel. Em Apocalipse 12.7 Miguel aparece novamente com referência à peleja no céu. O fato de que Miguel surge em cena mostra que Deus está lidando novamente com a nação de Israel, e Miguel é um ator aqui porque o destino de Israel está em jogo.
À vista dessas coisas, a conclusão de Moorehead é justificada. Ele escreve:
Em 11.19 lemos: "Abriu-se, então, o santuário de Deus, que se acha no céu, e foi vista a arca da Aliança no seu santuário". Isso é assunto estritamente judeu; o templo, a arca, a aliança pertencem a Israel, representam os relacionamentos hebraicos com Deus e os privilégios hebraicos. O Espírito agora trata de coisas judaicas — posição, aliança, esperanças, perigos, tribulações e triunfo hebraico. (William G. Moorehead, Studies in the Book of Revelation, p. 90)
A mulher não pode ser ninguém senão Israel, com quem Deus firmou Suas alianças, e a quem esses alianças serão cumpridas.

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