quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Jefté e o sacrifício de sua filha

A Bíblia diz que Jefté fez um voto a Deus. Caso fosse bem sucedido na batalha contra os amonitas, ele ofereceria ao Deus Jeová, em sacrifício o que primeiro que aparecesse em sua frente ao chegar em sua casa. Aconteceu que ele derrotou os amonitas e ao chegar em casa sua filha foi quem primeiro apareceu ao seu encontro. Isso está registrado em Juízes 11.30-40. O texto diz que Jefté cumpriu o voto.

I.                  Duas teorias

Há uma longa discussão sobre esse sacrifício entre os exposito­res da Bíblia, que vem atravessando os séculos, sobre o sentido de "cumpriu nela o seu voto que tinha feito; e ela não conheceu varão" (v. 39). Uma linha de interpretação afirma que o sacrifício foi literal; Muitos têm entendido que Jefté ofereceu a vida de sua filha ao Senhor, dada a natureza inviolável de um voto feito a Deus (cf. Ec 5:2-6). E mais, observam que um holocausto envolve o sacrifício de uma vida, e justificam esse procedimento tendo por base que um voto a Deus tem precedência sobre tudo o mais, até mesmo sobre a vida humana (cf. Gn 22). Deus é soberano sobre a vida e a toma quando quer (Dt 32:39), como finalmente o faz (Hb 9:27).
 e outra, que foi o celibato, a moça sacrificou a sua virgindade, não se casando, pois o texto diz: "deixai-me por dois meses que vá, e chore a minha virgindade, eu e as minhas companheiras. E disse ele: Vai. E deixou-a ir por dois meses. Então foi-se ela com as suas companhei­ras e chorou a sua virgindade pelos montes" (vv 37, 38). Há ainda alguns pontos que precisam ser considerados sobre essa questão.

O texto sagrado, em nenhum lugar, afirma que Jeová mandou Jefté oferecer tal sacrifício, e da mesma maneira não diz que Jeová aceitou o mesmo. Jefté fez um voto precipitado por sua própria conta. Foi algo pessoal e voluntário. Acusar Jeová de uma coisa que a Bíblia não diz que ele fez é muita ousadia, se é que o homem pode julgar a Deus!
Entretanto, por diversas razões, não é necessário admitir que Jefté tenha oferecido um sacrifício de morte. A Bíblia diz que o sacrifício humano é abominável diante de Jeová, logo se puder ser confirmado como literal o sacrifício da filha de Jefté, somos obrigados a admitir que foi uma profanação e, como tal, foi recusado por Jeová.

II.               Fatos que comprova a idéia de celibato:

1.    Ele tinha consciência da lei contra o sacrifício humano, e se essa fosse sua intenção quando fez o voto, um sacrifício humano, ele saberia que isso teria sido uma clamorosa rejeição da lei de Deus. É inconcebível que Jefté ou qualquer outro israelita pensasse que estaria agradando a Deus ao cometer essa abominação terrível na presença do Senhor e em seu altar. "Não adorem o SENHOR, o seu Deus, da maneira como fazem essas nações, porque, ao adorarem os seus deuses, elas fazem todo tipo de coisas repugnantes que o SENHOR odeia como queimar seus filhos e filhas no fogo em sacrifícios aos seus deuses. Apliquem-se a fazer tudo o que eu lhes ordeno; não acrescentem nem tirem coisa alguma" (Dt 12.31, 32). Lemos ainda em Deuteronômio 18.10-12: "Não permitam que se ache alguém entre vocês que queime em sacrifício o seu filho ou a sua filha; que pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou faça presságios, ou pratique feitiçaria ou faça encantamentos; que seja médium, consulte os espíritos ou consulte os mortos. O SENHOR tem repugnância por quem pratica essas coisas, e é por causa dessas abominações que o SENHOR, O seu Deus, vai expulsar aquelas nações da presença de vocês". Em vista da proibição divina e aversão de Iavé a essa prática, o fato de Jefté haver assumido tal responsabilidade seria equivalente a Deus ter renunciado completamente a sua soberania. Seria como repudiar a própria aliança, que exigia de Israel fosse santidade ao Senhor.

2.    Igualmente incrível é a idéia de que Deus, sabendo antecipadamente que Jefté teria a intenção de quebrar dessa forma sua lei e de pisotear sua aliança com Israel, apesar de tudo lhe concederia a vitória sobre os inimigos. A analise desse evento nesses termos envolveria uma dificuldade teológica insuperável, pois implicaria admitir um comprometimento sem esperança de integridade da parte do próprio Deus. O texto não diz ter ele realmente matado sua filha como holocausto. Isto é apenas inferido por alguns porque ele tinha prometido que quem quer que primeiro saísse de sua casa seria oferecido ao Senhor "em holocausto" (11:31). Como Paulo mostrou, os seres humanos devem ser oferecidos a Deus como um "sacrifício vivo" (Rm 12:1), e não como sacrifício de mortos. É possível que Jefté tenha oferecido sua filha ao Senhor como um sacrifício vivo. Por todo o resto de sua vida ela serviria ao Senhor na casa do Senhor e permaneceria virgem.

3.    um sacrifício vivo de perpétua virgindade era um sacrifício tremendo no contexto judaico daqueles dias. Fazendo alguém voto de perpétua castidade, e sendo dedicada ao serviço do Senhor, ela não poderia jamais ter filhos e assim dar continuidade à linhagem familiar de seu pai. Jefté agiu com muita honra e grande fé no Senhor, não voltando atrás em relação ao voto que ele havia feito ao Senhor seu  Deus.
4.    este modo de ver a questão apóia-se no fato de que quando a filha de Jefté saiu para chorar por dois meses, ela não saiu para lastimar a sua morte iminente. Não, ela saiu e "chorou a sua virgindade" ,(v 38 beûlîm), e a resultante extinção da linha genealógica de seu pai, visto ser ela filha única. Tendo sido colocada para trabalhar no tabernáculo (cf. Êx 38.8; 1 Sm 2.22 e outras referências sobre virgens consagradas que serviam no templo), a jovem jamais se tornaria mãe; daí a ênfase na expressão "ela nunca deixou de ser virgem" (Jz 11.39). Essa observação não teria sentido se de fato a moça fosse sacrificada.

Conclusão: Finalmente, se ela tivesse de enfrentar a morte ao fim dos dois meses, teria sido muito simples para ela casar-se com alguém e viver com essa pessoa durante os dois meses que antecederiam sua morte. Não havia razão para a filha de Jefté lastimar pela sua virgindade, a menos que estivesse com a perspectiva de viver toda uma vida nessa condição. Com Jefté não tinha outros filhos, sua filha não se lamentou acerca de sua virgindade por causa de nenhum desejo sexual ilícito.

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